quinta-feira, 4 de julho de 2013

Mesa: O dia a dia debaixo d’água

Por William Oliveira

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!”

Fossem as poetas da mesa O dia a dia debaixo d’água adeptas da métrica e rima, muito provavelmente a citação do verso de Fernando Pessoa não seria descabida. Afinal, a imagem de disforme e por vezes implacável que o mar evoca na literatura parece bastante presente na maneira como Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques e Bruna Beber lidam com a linguagem e com a procura de sentido do fazer poético. “Fazer poesia é tentar transformar um tropeço em passo de dança”, disse Alice a certa altura, provocando olhares de aprovação da plateia.


Além do fato de serem jovens, em comum entre as três há o fato de terem tido uma vida de certo modo distante de qualquer orla oceânica. Nascida em Belo Horizonte, Ana Martins Marques pareceu a síntese desta afirmação – como “qualquer” mineiro, invariavelmente enxerga na imensidão marítima uma vasta gama de possibilidades para a reflexão.

Mediada pela professora Noemi Jaffe, a mesa teve seu auge no elogio à simplicidade que as três poetas demonstraram ao ler seus poemas em verso livre com grande desenvoltura e precoce maturidade. Bruna Beber, por exemplo, com seu picolé de limão, e do alto de seus 29 anos de idade, não poderia ter sido mais sagaz e bem-humorada. Seus versos curtos e cortados na base da foice resumem talvez qualquer trajetória existencial de um sujeito comum e podem até nos poupar de qualquer ida a um divã psicanalítico em busca da tão sonhada cura.

picolé de limão

pensando rápido
a vida é desgraçada

– o primeiro rádio
ganhei no bicho

meu primeiro amor
achei no lixo

o primeiro tiro
levei no bingo

meu melhor amigo
conheci na cadeia

a primeira ambição
um palito premiado –

pensando lento
que graça