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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Darcy e a consciência de quem somos


Por Eric Nepomuceno | Para o Valor, do Rio

Já lá se vai um bom tempo - em fevereiro agora serão 16 anos - que Darcy Ribeiro cometeu a suprema indelicadeza de nos deixar. Tinha 75 anos. Foi antropólogo (dizia que seus melhores tempos foram os que passou entre indígenas na Amazônia, quando era o mesmo jovem impetuoso que soube ser até o fim), professor, ensaísta polêmico, romancista, político, vice-governador de Leonel Brizola no Rio, quando implantou a escola pública de período integral, agora tão copiada pelos mesmos que tanto a criticaram naquela época. Foi discípulo do general Rondon, defendeu os índios brasileiros com todas as suas forças.

Além disso, antes do golpe militar que em 1964 instaurou uma ditadura que o levou à prisão e ao exílio, foi ministro-chefe da Casa Civil, ministro da Educação e criou - com uma equipe especialmente brilhante de sua geração, uma geração que efetivamente soube pensar o futuro - a Universidade Nacional da Brasília (UnB), da qual foi reitor.

Durante seu longo exílio peregrinou pela América: Uruguai, Chile, Venezuela, Costa Rica, Peru, México. Assessorou Salvador Allende em Santiago e Juan Velasco Alvarado em Lima, durante a frustrada revolução dos militares peruanos que entre 1968 e 1975 tentou mudar o país. Foi consultor da ONU. Foi tudo isso e muito mais. Dizia que era, acima de tudo, educador.

Morreu senador da República. Cada vez que penso no que ele fez e viveu, chego à conclusão que 75 anos foi um tempo demasiado curto para tanta coisa. Mas assim era ele.

Quis entender o Brasil. Quis revelar o Brasil, a si mesmo e aos brasileiros. Até o último suspiro viveu com a angústia dessa tentativa, com a urgência dessa frustração. Esse esforço descomunal está em toda a sua obra, dos estudos antropológicos aos ensaios sobre nossa história, passando pela sua atuação política e pelos romances. Senão, o que seria "Maíra", o que seria "O Mulo", puras tentativas de entender, explicar e denunciar um país de barbaridades e esperanças imensuráveis?

O resumo desse esforço sem fim está registrado no seu derradeiro livro, "O Povo Brasileiro". É, talvez, seu mais complexo e completo voo para entender os mecanismos que, durante séculos, impediram nosso país de ser o que poderia e podia ser.

Quis também entender a América Latina. Era um inquisidor insaciável, que disparava perguntas ao tempo, aos contemporâneos, à história, a si mesmo.

Sua obra sobre nossas comarcas - "As Américas e a Civilização" ou "O Dilema da América Latina" são referências permanentes há décadas - ajudou a formar gerações de mentes inquietas continente afora. Continua sendo mais estudado, debatido e cultuado nos países hispânicos do que nesta nossa medíocre mesquinhez.

Foi o mais latino-americano dos intelectuais brasileiros, sempre tão distantes e distanciados de seus vizinhos. Em outubro, para celebrar os 90 anos que ele não chegou a cumprir, a Fundação Darcy Ribeiro, com a Editora da UnB e a Fundação Biblioteca Nacional, publicou uma nova edição de seu livro "América Latina: a Pátria Grande".

São textos escritos entre meados dos anos 70 e princípios dos 80, tempos de turbilhão, quando a maioria de nossos países sufocava debaixo de ditaduras de maior ou menor ferocidade, mas ferozes todas, outros padeciam o tormento de guerras civis genocidas e uns poucos, como ilhas isoladas, viviam democracias pressionadas e ameaçadas.

O mais impressionante desse pequeno volume é que, passadas décadas, e apesar da natural defasagem de alguns dados e da transformação de algumas vertentes da realidade, continua sendo a prova da capacidade de Darcy ser um visionário, um ardoroso defensor da inexistência do impossível.

Em vários aspectos, o que está nesse livro mostra que, ao disparar respostas e perseguir perguntas, Darcy antecipava o que ocorreria em nossas comarcas e, ao mesmo tempo, exigia, iracundo, as mudanças e transformações que não chegou a ver. Era implacável na defesa de suas ideias. E a essência de seu conteúdo continua inalterada, como inalterada continua sendo a urgência de suas demandas.

Defendeu com tenacidade juvenil a certeza de que o futuro das nossas gentes - e não apenas dos brasileiros, certamente os mais alheios, mas de todos os moradores dessa parte do mundo - está inevitavelmente vinculado à necessidade de assumir nossa identidade latino-americana, ao mesmo tempo tão una e tão diversificada.

Acreditava, com fé de peregrino, que fazemos parte de uma determinada realidade atemporal e são muito mais nossos pontos de encontro que de separação. E se angustiava profundamente com a obtusa resistência, sobretudo brasileira, de entender que, separados, não somos nada nessa América de todos nós.

Hoje, o que ele dizia integra o repertório de palavras da solenidade pomposa dos discursos oficiais. Mas, naquele tempo, eram palavras peregrinas de um obstinado.

Muita coisa mudou, é verdade, e ele não esteve nem está aqui para ver. Mas, apesar de tanta mudança, ainda estamos a léguas e léguas do que ele esperou a vida inteira para começar a ver - e não viu.

No Brasil de seu tempo, e também nos de depois, Darcy foi quem melhor incorporou a consciência da latinidade, a visão da Pátria Grande. Soube dimensionar o espaço, o peso e a responsabilidade do Brasil entre todos os outros países que, como peças individuais, as pequenas pátrias de cada um de nós, formariam juntos, ou juntos deveriam formar, o grande mosaico da Pátria Grande, a de todos.

Assim viveu seus anos de andarilho exilado: atuando nos países que lhe deram abrigo, participando do cotidiano, dos processos políticos, culturais e sociais. Quis entrar fundo - e entrou - na realidade, entendê-la, para poder lutar para transformá-la. De cada país onde viveu trouxe marcas definitivas. Em cada um deles deixou suas marcas. Muitas delas permanecem, profundas.

Sua maneira de ver o mundo e viver a vida rejeitava a contemplação distante e estéril, a serenidade dos conformados, o silêncio dos omissos.

Quis entender - e entendeu, e depois explicou - os processos de formação da América Latina a partir do nosso ponto de vista. E se negou sempre a renunciar ao direito de ter um olhar próprio, interior, sobre esse nosso continente.

Insistiu, até o fim, em acreditar na necessidade urgente e perene de transformações profundas na região, para que alguma vez nos seja possível ser o que podemos ser, e não o que quiseram que fôssemos.

Muitos dos processos reclamados por ele foram e estão sendo implantados, ainda que de maneira incipiente, e com falhas que com certeza o irritariam profundamente - na mesma profundidade com que ele seria capaz de tratar de entender e sugerir correções. Povos que pareciam condenados a séculos de humilhação infame tratam de tomar seus destinos nas mãos.

Pela primeira vez em décadas e décadas a América Latina vive uma etapa, em suas diversas latitudes, de recusa à negação e de aposta na reivindicação. Os humilhados e abandonados de sempre tratam de encontrar as brechas para construir seu futuro.

Darcy Ribeiro foi um homem de paixões incendiadas, e a América Latina, a Pátria Grande, foi uma de suas paixões permanentes.

Sim, é verdade: desde que ele se foi, naquele fevereiro aziago de 1997, muita coisa mudou no Brasil e na América Latina. E para melhor. Mas, se não tivesse ido embora, ele estaria, turbulento e urgente, pedindo mais, e mais. Reivindicando um presente negado por décadas, arfando para apressar um futuro que acreditava merecido.

Certa vez, ouvi dele uma frase definitiva: "Na América Latina, seremos todos resignados ou indignados. E eu não vou me resignar nunca".

Cumpriu o prometido. E a nós cabe a tarefa de honrar essa indignação, essa memória. De mostrar que finalmente tomamos consciência de que podemos ser autores e protagonistas da nossa história, nosso destino, nossa vida.

Eric Nepomuceno é escritor e tradutor, autor de "Coisas do Mundo" (Companhia das Letras), "O Massacre" (Planeta) e "Antologia Pessoal" (Record)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Destaque na arte contemporânea, Adriana Varejão ganha exposição panorâmica no MAM

Tema do livro Pintura e Realidade, artista plástica terá suas obras exibidas no MAM-RJ a partir de 17 de janeiro.

Por Luisa Duarte – O Globo

Ao longo dos últimos anos, a arte contemporânea se tornou um fenômeno no Brasil. Assim, um interesse crescente na produção brasileira vem surgindo de forma notável — produção esta que antes mesmo de ganhar notoriedade aqui já era reconhecida fora do país. Na ponta desta “onda” estão alguns nomes de peso, e um dos que mais chamam a atenção e se torna quase uma grife é o de Adriana Varejão.

A ocupação deste lugar de destaque vem sendo comprovada: em 2011, Adriana se tornou a artista brasileira viva cujo trabalho foi vendido pelo mais alto preço então já pago por uma obra. O quadro “Paredes com incisões à la Fontana” saiu por 1,1 milhão de libras em um leilão na Christie’s (em 2012, o recorde foi quebrado por Beatriz Milhazes, cuja pintura “Meu limão” foi arrematada por US$ 2,1 milhões). Adriana foi, ainda, a primeira brasileira viva a ter um trabalho adquirido por uma instituição de prestígio internacional como a Tate Modern.

Mas é preciso lembrar, em meio ao alarido que seu nome provoca, que a artista de forma alguma é somente um fenômeno midiático e de vendas, mas alguém que vem construindo um dos capítulos mais singulares da cena contemporânea — as subversões realizadas no campo da pintura por Adriana merecem ser estudas em profundidade. Sobre o sucesso, ela mesma o analisa com lucidez:

— Meu foco está na pintura desde o início. É muito bom poder viver bem do próprio trabalho, pois isso reverte a favor da obra. Eu não tenho a urgência da venda da obra. Posso guardar certos trabalhos, ter um acervo em meu ateliê. A pintura é o eixo. Sou uma operária da pintura, sempre fui e sempre serei.

Livros e viagens no processo

Se Adriana se diz pintora, estamos diante de um denso programa artístico desenvolvido desde a década de 1980. É este percurso que poderá ser visto no MAM a partir de quinta-feira, na mostra panorâmica “Adriana Varejão — Histórias às margens”, com curadoria de Adriano Pedrosa. A exposição foi inaugurada ano passado no MAM-SP, tendo pequenas mudanças em sua versão carioca.

O título remete à força da História na obra da artista e ainda à atenção dada às margens, na contramão de um eurocentrismo. O arsenal de referências de Adriana passa pelas histórias do Sul, dos índios, da China, do barroco mineiro, da mestiçagem.

Com 40 trabalhos realizados nos últimos 22 anos, a seleção curatorial foi pensada de maneira a exibir os melhores exemplos de todas as séries que a artista produziu. Há ainda uma primorosa pintura de grande escala feita especialmente para a mostra, “Panorama da Guanabara”.

Visitar a exposição é entrar em contato com um universo em que se cruzam referências. Se a obra é atravessada por forte voltagem visual, sua fonte está nas ideias. Leituras e viagens são partes fundamentais do processo. O tempo gasto no departamento de Medicina de uma universidade em Tóquio para ver a técnica dos irezumis (grandes pedaços de pele inteiramente tatuada cortados de cadáveres e expostos como arte) ou a leitura de autores como Severo Sarduy e Walter Mignolo são tão importantes quanto as horas no ateliê. Da China ao barroco, da azulejaria à iconografia da colonização, da História da arte à religiosa, do corpo e seu erotismo à cerâmica e aos mapas, da tatuagem ao seres aquáticos, vasto é o mundo que lhe interessa.

Tal amálgama de referências faz de sua pintura uma manifestação que está longe de ser aquela voltada somente para si mesma, ou seja, uma pintura que discute o próprio meio.

— Acho maçante quando a pintura só fala dela mesma. Esta discussão já se esgotou. Eu escolhi falar de coisas que estão no mundo — diz Adriana.

Três dimensões

Ao longo do século XX, a pintura ganhou um corpo com três dimensões. A obra do italiano Lucio Fontana é emblemática desta passagem. A pintura de Adriana é herdeira desta superação e nos evoca de forma eloquente este “corpo da pintura”.

O trabalho da artista, desde o início, vem marcado pela presença de dois elementos recorrentes: o azulejo e a carne — uma carne claramente anedótica, teatralizada. A série de trabalhos “Ruínas de charque”, por exemplo, nos revela mais uma vez o encontro destes dois elementos. Mas se azulejo e carne encontram-se presentes em obras que datam desde 1995, nas quais já existia um claro movimento “para fora” — como no caso das “Línguas” e das “Azulejarias em carne viva” — será com as “Ruínas” que, pela primeira vez, as pinturas saem da parede para ganhar o espaço, dialogando com a escultura e a arquitetura.

Tais obras são espécies de esculturas/pinturas em forma de ruínas, revestidas por azulejos. No interior, em contraste com a superfície plana e geometrizada do exterior, encontramos a representação da carne de charque. No lugar do cimento, carne vermelha.

Severo Sarduy apontou a substituição como um dos procedimentos característicos da estética barroca. Esta substituição, dependendo de quais elementos coloque em funcionamento, não opera tão somente uma permutação neutra. Realiza, isso sim, um desvio na significação original e estabelece uma nova. As imagens das ruínas, por sua vez, são a transfiguração de um tempo inacabado.

Tempo e erotismo: dois elementos constantemente ativados por Adriana. A experiência do tempo nas cidades do Novo Mundo é descrita com precisão por Claude Lévi-Strauss (outro autor importante para a artista/pesquisadora) no capítulo dedicado à cidade brasileira de São Paulo de seu livro “Tristes trópicos”. Tal pensamento encontra sua síntese na passagem: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.” Este tempo em que as coisas não se concluem é o da experiência do tempo de um Novo Mundo desprovido de tradição. E será justamente da história dos ganhos desta ausência de que se vale o trabalho de Adriana. Ela realiza um livre jogo com o tempo e a História na sua pintura desde trabalhos iniciais, como “Filho bastardo” e “Passagem de Macau à Vila Rica”.

Se em uma primeira fase temos uma obra mais voltada para uma articulação crítica do passado, hoje nos deparamos com uma visualidade mais depurada, na qual o tema da colonização sai de cena, mas permanecem elementos como o corpo, a história, a teatralizacão do mundo e o erotismo. Uma série mais recente como a das “Saunas” não deixa de evocar o corpo na sua ausência ou nos seus rastros, como no quadro em que somente um chão ensaguentado revela sua passagem.

Esta generosidade da forma encontrada no trabalho de Adriana leva até a longa tradição barroca, da qual sua pintura é uma herdeira contemporânea.

Mas os mais atentos podem se perguntar neste momento: não estávamos justamente falando do fim da tradição? Como então é possível esta artista do século XXI ser uma herdeira de uma longa tradição estética? De que forma ela poderá se relacionar com a tradição barroca hoje? Também aqui Adriana opera uma reinvenção, uma inversão de sinais com a sua herança. Nas suas pinturas testemunhamos uma transmutação do elevado, do excelso, do ouro, dos anjos, de tradicionais obras barrocas, para um universo barroco agora selvagem, voraz, vermelho, erotizado, em carne viva.

“Adriana Varejão — Histórias às Margens” é uma exposição de pintura que revela como esta que é a mais antiga das linguagens artísticas pode ser palco de uma teatralização que subverte o próprio meio e, num gesto antropofágico, devora o mundo à sua volta e o devolve transfigurado, repleto de eloquência visual e verticalidade conceitual.

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Copyright: 
http://oglobo.globo.com/cultura/destaque-na-arte-contemporanea-adriana-varejao-ganha-exposicao-panoramica-no-mam-7301997 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ars Moriendi


Por Valter Hugo Mãe

Dei a mão ao Lêdo Ivo para o ajudar a descer três degraus. Saíamos diante de um jardim lindíssimo. Ele disse que aceitava a minha mão com reservas. Não queria sentir-se velho. Eu respondi que não o fazia pela idade, fazia-o pelo deslumbre das vistas. Era possível que causasse tonturas.

Ficámos andando entre os canteiros, apenas gostando do fim de tarde, já mais fresco, a luz bonita, um sossego agradável. Ele estava muito contente. Os espanhóis recebiam-no com muito carinho e atenção. Ele sentia orgulho pelo trabalho do Martín López-Vega, o seu, e meu, tradutor e editor. Nós sorríamos. Estávamos encantados com a mariquice de ver plantinhas e flores. Éramos poetas, sensíveis, e eu gostava tanto da poesia dele que me esticava como quem tem brio na sorte.

Foi em Córdova. Eu queixava-me do calor, a fúria do sol. Ele, não. Achava que eu, por ser português, conhecia as pessoas todas de Espanha. Perguntava-me quem eram este e aquele, ficava admirado com a minha ignorância. Creio que, nessa altura, pensava em Portugal como um país de gente esquisita. Não lhe haviam ainda editado nenhum livro. Devia sentir alguma irritação com isso. Eu, confesso, sentia vergonha. Falava do calor, ele fungava, eu suava, tinha vergonha. Ele, esporadicamente, falava de Maceió. Parecia sempre estar prestes a voltar a Maceió. Como se fosse perto. Era, certamente, muito perto da sua cabeça.

De todo o modo, ficámos amigos. Havia uma natureza qualquer a conspirar a favor das nossas conversas e era simplesmente fácil ter assunto, gostar de ter assunto. Talvez por isso, a urgência desapareceu e ficou só uma qualquer estabilidade. Não tínhamos mais pressa para nada. Ver plantinhas e flores, ignorando a correria da agenda, a organização que andava sempre atrás de nós, era um bálsamo. Queríamos andar por ali como se tivéssemos direito à liberdade de andar por ali. E não queríamos mais nada. Estávamos bem.

Quando recebo do Martín a notícia da morte do Lêdo Ivo, exactamente em Espanha, percebo que, afinal, tudo na vida urge e que a estabilidade, como outra coisa qualquer, é sempre apenas um instante. Talvez me apazigue o ter escrito há poucos meses sobre a primeira antologia da sua poesia editada em Portugal. Talvez me apazigue que ali lhe tenha dito muito acerca do meu apreço. Guardo a satisfação de ele me ter lido e respondido, encantado com o meu encantamento. Mas isso não apaga a frustração.

Ia ser lindo que a morte fosse três degraus diante de um jardim lindíssimo. E que houvesse alguém a estender a mão. Não pelo medo de se cair, mas pela tontura do deslumbre. Ia ser lindo que o Lêdo Ivo morresse apenas assim, deslumbrado, e de nenhum outro modo.

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Valter Hugo Mãe é escritor português. Esta crônica foi publicada no jornal Público em 03/01/2013.
http://www.publico.pt/cultura/noticia/ars-moriendi-1579336

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Esporte Unissex ou Transgênero?

Por Jorge Knijnik[i]

O “planeta esporte” sempre foi uma arena especialmente fértil para a construção de simbologias de gênero rígidas, bipolares e em oposição frontal uma diante da outra. Reforçar e mesmo formar esquemas que consagrem os padrões de masculino e de feminino aceitos e vigentes hegemonicamente é algo que o esporte vem ajudando a construir há anos – sobretudo enquanto fenômeno que dispõe do corpo humano, no qual são inscritos muitos dos signos estereotipados de gênero. Dessa forma, o esporte pode ser considerado uma instituição social “genereficada”. Mas também, por tudo aquilo que dispõe ao mundo enquanto normas de comportamento e atitudes, o esporte também é um fenômeno “generificador”. – um fenômeno que ajuda a construir a ordem de gênero vigente.

O atleta, qualquer que seja o seu sexo, deve se conformar com as normas de gênero hegemônicas presentes na sociedade, as quais, tais como outras hierarquias – étnicas, sociais, econômicas, entre outras – engendram relações de poder no cenário esportivo. Relações de poder que apontam para desigualdades sociais – notadamente a exclusão, a marginalização e a discriminação da mulher no esporte – que, por sua vez, são pautadas nas diferenças biológicas. E no esporte a diferença em questão é o sexo, como se esta fosse a única distinção biológica existente entre todos os humanos a ser levada em consideração na prática esportiva.  Não se atenta, todavia, que há outras variantes biológicas importantes para a experiência esportiva, tais como estatura, tamanho de membros, gordura, entre tantas outras, que ocorrem não somente entre homens e mulheres, mas entre todos os humanos. E que, em termos esportivos, pode haver uma diferença muito maior entre um homem muito alto e outro muito baixo, do que entre um homem e uma mulher de tamanhos semelhantes.  E, no esporte, pessoas diferentes (independentemente do sexo) desenvolvem habilidades dessemelhantes, e se dirigem para modalidades diversas, de acordo com as suas características biológicas, mas também em virtude de oportunidades, interesses, possibilidades, etc.

E muitos, no afã de provar a inferioridade feminina pretendem confrontar as forças biológicas de homens e mulheres – se anteriormente a justificativa desta estratégia era saber se a mulher “poderia” fazer certas modalidades,  atualmente é para se conhecer se ela fará “como os homens”. No entanto, mensurar as diferenças físicas e/ou biológicas entre homens e mulheres teria relevância apenas se conseguíssemos "apagar" os efeitos dos aspectos históricos e sociais que envolvem o desenvolvimento da mulher no esporte - ao contrário de outras esferas da vida (econômica, política, etc.) a entrada da mulher na arena esportiva vem sendo mais lenta, a segregação foi e se mantém contínua. Todavia, o que se percebe é que as mulheres vêm atingindo recordes e marcas olímpicas semelhantes àquelas dos homens em anos anteriores; e o corpo da mulher não mudou radicalmente, não sofreu mutações em termos genéticos ou biológicos no último século – o que mudou foi a visão social que se tem do corpo. Isto mostra que o ambiente social, em todos os níveis (o treinamento físico, mental, aprovação social, tempo de prática, educação e oportunidades, etc.) é que vem mudando - e consequentemente a mulher, bem como o homem, frutos que são de seu tempo e cultura.

Porém, historicamente, a mulher foi proibida ou afastada da prática de esportes, quase sempre em virtude de certos aspectos biológicos, os quais segundo afirmações médicas e científicas de determinadas épocas, inviabilizariam a realização de atividades extenuantes.

Como se observa hoje em dia, estas características se baseavam muito mais na visão e nos preconceitos de gênero do que em verdades biológicas. Até mesmo a ciência está sujeita a mudanças, e suas verdades também são construtos históricos. Não se defende aqui que se anulem as diferenças entre homens e mulheres – que, aliás, são bem vindas como todo o conjunto da diversidade humana, que enriquece o mundo. Tampouco se está pleiteando que eles e elas comecem a disputar junto, em confronto entre si. Dificilmente se encontram modalidades esportivas nas quais a prática não seja entre pessoas de um mesmo sexo. Via de regra a disputa se dá somente entre homens ou apenas entre mulheres, e talvez não seja este o momento de se propor uma unificação radical.

Vivemos uma era de mudanças extremas, e estamos apenas esboçando ideias e explorando práticas correspondentes a estes novos tempos. Colocar homens e mulheres em cotejos típicos de “guerra dos sexos” – nos quais as normas dominantes de gênero provavelmente forçariam os homens a tomarem atitudes extremamente violentas para não correrem nenhum risco de serem suplantados pelas mulheres – poderia trazer prejuízos físicos, políticos e sociais para todos, pois a rigidez das representações de gênero no esporte não pressiona e prejudica somente as mulheres, excluindo-as, mas também amarra os homens.
                                     
No entanto, já há diversas experiências nesta direção, desde algumas mulheres competindo entre homens, oficialmente (caso do hóquei sobre patins na Finlândia), ou mesmo do hipismo clássico, no qual homens e mulheres competem individualmente pelos mesmos objetivos. E no esporte infantil, algumas competições já consideram a possibilidade de meninos e meninas disputarem em conjunto, uma vez que as tais diferenças físicas não se manifestaram ainda (?) antes da puberdade.

No interior de comportamentos agressivos, identificados com valores da (hiper) masculinidade hegemônica e brusca, os quais rechaçam a importância do feminino, sobretudo no esporte.

O aspecto central da agenda para os próximos anos, em primeiro lugar, é se ter clareza quais normas e estigmas de gênero podem estar levando a discriminações no mundo dos esportes. E se criar espaços educativos para a conscientização e reflexão sobre estas normas, nos quais se possa discutir e questionar os padrões vigentes e antagônicos de masculinidade e feminilidade. E principalmente procurar cada vez mais aproximar todos os programas esportivos das metas de desenvolvimento do milênio propostas pela força-tarefa para o desenvolvimento do esporte e da paz da ONU.

Esta força, composta por membros de diversas agências educativas, enxerga na prática esportiva uma excelente oportunidade para se desenvolverem valores de disciplina, liderança e autoestima, mas também de respeito, cooperação e tolerância. Para a força-tarefa, (...) a prática do esporte é vital para o desenvolvimento holístico dos jovens, ajudando sua saúde física e emocional, e edificando valorosas conexões sociais. O esporte oferece oportunidades para a diversão e autoexpressão, enéficos, sobretudo para os jovens com poucas oportunidades em suas vidas (UN, 2003, tradução livre).

Especificamente no que tange à equidade de gêneros, o documento é claro: o esporte é um direito humano fundamental, e como tal deve ser um instrumento na consecução de metas de paridade de gênero na educação. Em decorrência da tradicional e histórica exclusão das mulheres do mundo esportivo, a participação no esporte pode quebrar velha, mas consagrados estereótipos de gênero que pesam sobre garotas e mulheres. E a cada vez que mulheres atletas ganharem mais reconhecimento, se tornarão mentoras das novas gerações. A nova ordem de gêneros no interior do esporte não será “conceitualmente” masculina ou feminina; ao contrário, terá um horizonte “rosa  E azul”, com milhares de tonalidades, ultrapassará as barreiras e limites dos estigmas, não será excludente e fomentará a equidade.  Construir este novo estado das coisas, sobrepujando preconceitos e discriminações de gênero, é a urgente tarefa de todos e todas que acreditam no esporte como um instrumento para combater a barbárie e promover uma maior justeza nas relações humanas.



[i] Jorge Knijnik é doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Publicou pela Apicuri em 2010 o livro ‘Gênero e Esporte: Masculinidades e Feminilidades’. Atualmente mora e leciona na Austrália, onde é docente da School of Education at University of Western Sydney. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm

Artigo de Maurício Parada, autor de 'Educando corpos e criando a nação' (Ed. Apicuri) >>> http://bit.ly/PT64nD <<< para o jornal O Globo, capa do Segundo Caderno de ontem, sobre Eric Hobsbawm

domingo, 15 de julho de 2012

Uma crônica para a Flip

Esta é uma crônica de relatos avulsos dos dias na 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty em 2012


Por Rodrigo Novaes de Almeida

#1 Escrever é como cuidar de um bonsai, pensou Júlio, dentro do livro do chileno Alejandro Zambra. Mas por volta das dez e meia da manhã daquela quarta-feira, comendo pão-de-queijo na parada de ônibus da estrada Rio-Santos, eu ainda não sabia disso. Só leria o primeiro romance dele mais tarde.

#2 Há muitos anos, cerca de vinte anos atrás, tive um bonsai “genérico”. Ganhei do meu pai. Talvez fosse um pinheiro. Morreu depois de alguns meses. Sempre sonhei em ter uma laranjeira.

[Dois pães-de-queijo e uma Coca-Cola; Christiane pediu um café expresso e comeu um salgado]

#3 Céu azul, sol. Faz calor no inverno de Paraty. O centro histórico ainda não está cheio de gente. Duas horas da tarde, à mesa do bar Miracolo, na rua, diante da Praça da Matriz, assistimos à chegada de escritores, jornalistas e turistas literários – uma modalidade crescente nos últimos anos no país, com a proliferação de festas como essa (dados oficiais posteriores deram conta de 25 mil pessoas em Paraty durante a Flip deste ano).

[Bolinhos de bacalhau, suco de abacaxi com hortelã para Christiane e uma cerveja para mim]

#4 Por volta das três da tarde, Jennifer Egan chega a Paraty com o marido e seus dois filhos.

#5 Quatro horas da tarde, o plano inicial de pular o almoço, após percorrer as ruas do centro histórico e fazer o reconhecimento – inclusive fotográfico – da estrutura da Flip, não funcionou. Almoçamos no Dona Ondina.

[Risoto de camarão com palmitos. Estes, em rodelas, de tão grandes que eram, achei que fossem batatas; as batatas: na estrada, voltando da Flip para casa, leria um ensaio de M.F.K. Fisher sobre elas na revista Serrote]

#6 Comprei um chapéu cinza para a minha coleção; a coleção: um chapéu panamá comprado em Tenerife, um chapéu azul-marinho “vulgar” comprado em Alicante, um chapéu coco preto, herdado, que usei uma vez para tirar uma foto como “personagem do filme Laranja Mecânica”, e um chapéu de safari, apesar de nunca ter ido a um. A loja se chama Panos e cheiros e fica na Rua do Comércio.

#7 Preciso usar mais os meus chapéus, penso (ou comento com a Christiane. Não anotei isto no manuscrito desse relato).

#8 Entre o café da manhã na pousada e o almoço (falaremos logo dele, nos colchetes), começa a Flip de fato. Estamos na quinta-feira, mesa sobre Jorge Amado, com Walcyr Carrasco e João Ubaldo Ribeiro. Ubaldo diverte todo mundo nessa primeira manhã azul em Paraty.

[Peixe grelhado, arroz branco e salada, no Aconchego, antes das próximas duas mesas]

#9 À tarde, Juan Gabriel Vásquez diz que o romance é uma metáfora, ou algo assim, e eu decido escrever agora que esse relato é também uma metáfora. Percebo então que ainda não falei sobre Carlos Drummond de Andrade, o grande homenageado da festa. A metáfora me levou ao Drummond.

#10 No colégio de São Bento decorei um poema do Drummond para declamar em sala de aula. Era um trabalho valendo nota. Minha mãe me ajudou na véspera. Eu tinha uns nove, dez anos. E assim fomos apresentados, de Mãos dadas: Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro. / Estou preso à vida e olho meus companheiros... Não larguei mais os livros. Passava muitos recreios na biblioteca do colégio, e sonhava com “a grande biblioteca” do mosteiro que, se não me engano, visitamos uma única vez antes de fazermos a primeira comunhão. Aquela visita é uma das minhas mais caras memórias da infância. Ela despertou a minha imaginação para as histórias. E Drummond estava também lá, no manancial da minha escritura.

#11 Agora eu vou falar de vinho, antes de entrarmos a noite trabalhando nos textos sobre as mesas. O vinho e uma inconfidência. Comprei um vinho português pelo nome. Não, comprar pelo nome não é a inconfidência. Neste caso, não é o nome que atesta a qualidade do vinho. O nome, aqui, atesta a qualidade do próprio nome. Porque é o meu nome. O nome do vinho: Dom Rodrigo. Iria bebê-lo mais tarde, insone, depois de escrever o meu texto sobre a mesa Ficção e História (com Javier Cercas e Juan Gabriel Vásquez). Agora sim, a inconfidência: li e abandonei a leitura de Soldados de Salamina, “porque não era Hemingway escrevendo sobre guerras”.

#12 Problemas com a conexão de internet da pousada e do 3G. Paredes de pedras. Quase o mesmo tempo para postar um texto, de escrevê-lo. Garrafa Dom Rodrigo aberta, taça cheia, Christiane dormindo, peguei Bonsai para ler. Parei quase no fim do livro e da garrafa, e dormi. Terminaria o livro no Rio.

[Moqueca de peixe, arroz branco, pirão – restaurante Arpoador, na Rua da Matriz]

#13 Dois dias de mesas e lançamentos e encontros e textos e muitas fotos. Duas notas adicionais que decido colocar aqui, mesmo perturbando a linearidade do relato: (1) Sábado à noite encontrei Ian McEwan na Praça da Matriz. Tomei coragem e tirei uma foto com ele. (2) Domingo, antes de voltarmos para casa, atravessei a rua e entrei numa lojinha de retalhos que namorei, da sacada da pousada, durante esses dias. Não comprei uma colcha, mas uma almofada de retalhos.

[Almoço, sábado, na Creperia Farandole]

#14 À mesa. Esperamos os crepes. O nosso vocabulário cotidiano é tão pobre, penso, observando o telhado de uma casa do outro lado da rua. Bate sol nas telhas e posso ver uns vinte centímetros de céu azul salpicado de nuvens. Aquela estância eu separo do mundo: fragmento de telhado, céu, nuvens – através da enorme porta abobadada e muito antiga do restaurante. Aquela estância acolhe meus pensamentos – e um sentimento que se faz centelha.

#15 Centelha, sentimento e pensamentos que não posso descrever em palavras. Vocabulário pobre, vocabulário pobre. Nós, escritores, quando vencemos a língua é por teimosia.

[Um pedaço de pizza, domingo, antes de entrar no ônibus e voltar para casa]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Mesa: O avesso da pátria


Por Rodrigo Novaes de Almeida

Como fazer amor com um negro sem se cansar é o inusitado nome do livro de estreia de Dany Laferrière, escrito há cerca de trinta anos. O público presente se entusiasmou com a leitura de um trecho do livro pelo autor. Antes, Zoé Valdés lera um trecho do seu livro também, mas problemas técnicos no microfone interromperam a leitura e o seu fluxo narrativo. Valdés é autora dos livros O nada cotidiano e O tudo cotidiano, que, juntos, formam O todo cotidiano. Pátria, exílio, autobiografia e ficção, sexo: temas em comum nos livros dos dois convidados desta mesa. A mediação foi da escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, que vive no Rio de Janeiro.

Zoé Valdés é cubana e nasceu no ano da revolução, em 1959. Escreveu, entre outros livros premiados, O nada cotidiano. Este, clandestinamente em Cuba, enviando-o para a Europa pouco antes de se exilar em Paris, com a sua filha. Neste romance, ela conta a história de Pátria, seus amores, amigos e família, mas essencialmente de todos aqueles que ficaram em Cuba e viveram e ainda vivem sob o fracasso da revolução castrista.

Dany Laferrière nasceu em 1953 em Porto Príncipe, no Haiti, e em 1976 exilou-se em Montreal, no Canadá, fugindo da ditadura de Baby Doc. Em 1985, publicou seu primeiro livro, Comment faire l'amour avec un nègre sans se fatiguer (Como fazer amor com um negro sem se cansar), adaptado para o cinema pelo diretor canadense Jacques Benoit e lançado no Brasil somente agora (durante a Flip), pela Editora 34.

Como fazer amor foi escrito numa época em que eu era furiosamente livre”, afirmou Dany. No exílio, trabalhou em fábricas até que um dia comprou uma máquina de escrever Remington 22. Sentou diante dela e não parou mais de escrever.

Sexo e ficção

“Interessa-me escrever o desejo, principalmente o desejo da mulher, mas também o do homem. A dor do sexo, a ternura, o amor, o orgasmo feminino, as sensações”, disse Zoé, colocando o sexo como uma afirmação de identidade. Dany, por outro lado, politiliza até o sexo, considerando-o libertador.

Apesar de os dois escritores praticamente não conversarem entre si, foi uma mesa rica de ideias e experiências. Zoé disse ainda que a noção de pátria mudou e hoje está mais ligada à política do que à cultura. E admitiu que todas as noites, quando pega o seu computador e cadernos para escrever, retorna para a sua Cuba. Já Dany provocou risos do público ao afirmar que, quando quer saber notícias do Haiti, liga para a mãe e pergunta não como vãos as coisas no país, mas como ela está. O humor e a saúde da mãe servem como termômetro da situação no país. Ele também se comparou aos pintores primitivos – “seus verdadeiros mestres” –, dizendo-se “um escritor primitivo”.

“Somos animais leitores”, arrematou ainda, definindo perfeitamente todos que ali se encontravam naqueles cinco dias de festa, reflexão e literatura em Paraty.

Mesa: Exílio e flânerie


Por Rosangela Dias

O norte-americano, descendente de nigerianos, Teju Cole integrou a mesa Exílio e flânerie junto com Paloma Vidal. Paloma é argentina e vive no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Teju nasceu nos Estados Unidos, foi para a Nigéria e voltou aos Estados Unidos com 17 anos e vive atualmente em Nova York, talvez a cidade mais cosmopolita do planeta. Seriam exilados que flanam ou flanadores que se sentem exilados?

“O flâneur e o exilado são, de modos diferentes, mas às vezes complementares, figuras deslocadas e em deslocamento, que se veem fora dos seus espaços familiares. São figuras literárias por excelência, modernamente literárias, por produzirem e sofrerem situações de estranhamento, atravessando fronteiras, confrontando-se com algo que lhes é alheio, que é assustador mas também tem seu fascínio”, afirma Paloma Vidal em entrevista.

Teju e Paloma começaram a mesa lendo os próprios textos. Teju lê o início do primeiro capítulo de seu livro, Cidade aberta, passado em Nova York. Num inglês sonoro e ritmado, a leitura de Teju se aproximou de um caminhar. Mas o caminhar de Teju não é a flânerie descompromissada de Baudelaire por Paris ou João do Rio no Rio de Janeiro ao final do século XIX, início do XX. Julius, narrador e personagem do livro, caminha por uma Nova York pós-ataque às torres gêmeas. E nela o narrador não deseja se perder nas multidões, mas se afastar delas. E a multidão que Cole divisa no início de seu romance é uma multidão controlada, seja porque participa da maratona – precisa passar por lugares previamente demarcados – seja porque assiste à ela – não pode acessar determinados espaços destinados aos corredores –, multidão com objetivos definidos; ganhar e/ou terminar a maratona; ver a prova e quem a ganhou. Não uma multidão que deseja se perder na velocidade da modernidade nascente da passagem do século XX para o XXI. Esse caminhar de Julius/Teju se repete ao longo de todo o romance, é através dele que consegue falar da cidade e de si próprio. Caminhar que ele compara às aves que atravessam os céus de Nova York num movimento de migração considerado natural. Como acreditamos ser natural as migrações contemporâneas, apesar de sabermos as dificuldades enfrentadas por aqueles que migram, seja em busca de melhor qualidade de vida, por razões políticas ou questões de mera sobrevivência.

Julius, o narrador, nos passa certo estranhamento por ali estar, os espaços lhe são conhecidos, mas ele não se sente confortável neles. O passeio que inicia está carregado de simbolismos, porque assim é Nova York, extensão e compressão de todas as possibilidades urbanas e citadinas. Julius, o narrador, chega a Columbus Circle, praça que homenageia o descobridor do Novo Mundo. É nela que termina a maratona de Nova York. Visita professor descendente de japonês que chegou a viver em campo de concentração durante a II Guerra Mundial. Julius/Teju critica o shopping de lojas caras e quando acredita que o shopping possa lhe abrigar para fugir da multidão – nele há uma livraria com um café – descobre que não pode entrar no prédio por conta da maratona. Até o comércio que lhe era familiar se torna estranho, lojas fecham ou estão com seus dias contados, caso principalmente das lojas de CDs. Em outro capítulo Julius/Teju é discriminado no metrô por duas crianças que o consideram bandido, pelo fato de ser negro.

Paloma lê o primeiro capítulo de seu livro Mar azul, que ainda será lançado. Mas a discussão se situa bem mais em livro anterior de Paloma, Algum lugar, cujo trecho final foi lido por João Paulo Cuenca, mediador da mesa. A origem do livro foi a passagem de Paloma por Los Angeles, cidade em que viveu para fazer curso de doutorado. Los Angeles não permite a flânerie, nela não há esquinas e se alguém assistiu ao filme Um dia de cão (EUA, 1975, dir. Sidney Lumet, com Michael Douglas) deve lembrar o quanto a mesma pode ser inóspita, mesmo que você se locomova nela de carro, ainda que seja uma cidade a automóveis destinada. Entretanto, escrever sobre Los Angeles fez com que Paloma gostasse da cidade; é para isso que se escreve sobre as cidades, para se gostar delas, diz a autora. Teju também se sentiu bem mais novaiorquino após escrever sobre a big apple.

Antes dos livros, os autores se sentiam estranhos em relação às cidades em que viviam. Escrever sobre elas fez com que delas se apropriassem, tecessem um vínculo. Em ambos, vemos uma escrita que podemos chamar de confessional, em que as cidades ganham concretude, não no sentido de contarem a própria história ou a história da cidade (ainda que no caso de Teju a história de Nova York surja), mas no uso que fazem da experiência de nelas morarem para criarem uma ficção. De uma passagem “fracassada” por Los Angeles, segundo Paloma, surgiu um livro.

O estranhamento causado pelo caminhar de Julius/Teju e a busca de “algum lugar” por Paloma numa Los Angeles excludente de quem caminha torna nossos autores/narradores exilados que flanam. Situação que talvez até tenha mudado após a escrita dos livros, mas no momento em que esta se fazia, este era o sentimento.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Jennifer Egan e Black Box


Por Christiane Angelotti

Uma das mais aguardadas participações desta décima edição da Flip, a escritora americana Jennifer Egan realmente surpreende. Seu romance A Visita Cruel do Tempo deixou até a crítica literária, que reclamava de uma mesmice, maravilhada.

Audaciosa, como muitos a descreveram, Jennifer passa segurança ao falar, segurança esta digna de grandes escritores. Durante a mesa em que participou ao lado de Ian McEwan, demonstrou repudiar autores que se comportam como “estrelas”. McEwan e Vila-Matas foram outros escritores que também não perderam a oportunidade de criticar tal comportamento.

A visita cruel do tempo é um livro em 13 capítulos que parecem ser contos, isolados, mas na verdade estão unidos numa mesma trama. Eis uma das grandes nuances do livro. A indústria da música e o tempo são alguns dos fios condutores do romance, que gira em torno de Bennie, um produtor musical e sua assistente, Sasha. O livro conta a história desses personagens principais e dos periféricos num período de 50 anos.

Jennifer Egan também escreveu no Twitter pelo jornal The New Yorker a micro ficção Black Box, que pode ser lida na ítegra AQUI. Egan afirmou durante a mesa “Pelos Olhos dos Outros”, na 10ª.  Edição da Flip, que tem bastante interesse nas redes sociais, o que a motivou a escrever histórias fragmentadas, além da possibilidade de explorar o potencial das mesmas. Black Box foi publicada durante uma hora, por dez dias seguidos, no perfil do jornal The New Yorker. Mas o interessante é que a autora o escreveu primeiro em um caderno japonês com oito retângulos em cada página, antes de tuitá-lo.

Pequenas notas sobre a mesa: Drummond, o poeta moderno


Por Rosangela Dias

Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin, ambos professores universitários, abordaram dois poemas de Drummond componentes do livro A rosa do povo, escrito entre 1943 e 1945, sendo neste ano publicado. O primeiro cuidou bem de “O elefante”e o segundo acariciou “Áporo”.

Villaça, na mesa, confessou que não gostava de Drummond quando adolescente, o considerava “difícil”, seu poeta preferido era Manuel Bandeira. Entretanto, rendeu-se ao poeta ao conhecê-lo melhor, e tanto, que escreveu a dissertação de mestrado “Consciência lírica em Drummond”.

Secchin, em entrevista a Ademir Pascale, editor do portal CRANIK, declara, revela, admite, afirma e confirma em resposta rápida que, em tendo que citar um livro, este é A rosa do povo. O prefácio da edição de 2012, da Companhia das Letras, que está publicando a obra completa de Drummond, de A rosa é escrita por Secchin. Vínculos outros e muitos devem existir entre Secchin e a obra de Drummond.

Os dois tabelaram de forma muito bonita na mesa. Villaça expondo os dilemas de Drummond, sobre “ser ou não ser um animal político”. Desejo que possuía, mas que não conseguiu realizar, felizmente. Drummond aproximou-se do partido comunista, mas a ele não se filiou. “A ideologia mata a poesia”, ideia de Otto Maria Carpeaux revelada por Villaça, Drummond foi poetíssimo.

Secchin abordou com precisão e argúcia a escrita de Drummond, o conhecimento que o poeta possuía das palavras, como conseguia extrair delas inúmeros sentidos, o que confere concretude maior à poesia. Para Villaça a poesia possui concretude, não abstrações.

Mas o afastamento da ideologia não confortou o poeta que estava à procura de amigos, por isso vestiu-se de elefante, como revela o poema. A rosa foi escrito em momento difícil, fim da II Guerra Mundial; mortos, sangue, órfãos, holocausto. As palavras, que tinham sido tão desgastadas nos discursos políticos-ideológicos do período precisavam retomar seu lugar, sua dimensão, sua precisão e novos sentidos. Precisavam se soltar porque, como Drummond afirma em “A consideração do poema”:

As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Secchin, preocupado em mostrar a produção literária do poeta, ao analisar “Áporo”, faz o que Drummond recomenda:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Nelas, também estão mergulhadas as mesas da Flip.

sábado, 7 de julho de 2012

Mesa: Pelos olhos dos outros


Por Rodrigo Novaes de Almeida

Jennifer Egan e Ian McEwan têm em comum personagens empáticos, disse Arthur Dapieve, mediador da mesa. Foi o ponto de partida para os dois escritores falarem sobre como constroem suas narrativas.

Egan disse que começa os seus romances com a atmosfera, tempo e lugar, e não com os personagens. McEwan admitiu “entrar como sonâmbulo” no processo de criação, comparando-se a um pintor, em que cada traço levaria ao próximo e assim por diante. “Não consigo imaginar qual personagem estará no meu próximo romance”, confessou. Ambos concordaram que seus personagens vêm à tona no decorrer da escrita.

“Eu preciso que o romance morra e os personagens se congelem, fiquem para trás; só assim posso começar outro”, disse McEwan. Jennifer Egan, ao contrário, afirmou que seus personagens passam a fazer parte da sua própria memória, como se existissem de fato. E ainda contou ter prazer na manipulação – seus narradores têm pouca credibilidade, não se pode confiar neles – e que “tudo é manipulação. O romancista é um manipulador.”

Ian McEwan nasceu em 1948 em Aldershot, na Inglaterra, sendo hoje um dos autores mais badalados da sua geração. Destacam-se os romances  Amsterdam (1998), pelo qual saiu vencedor do Man Booker Prize, Reparação (2001), cuja adaptação para o cinema teve sete indicações para o Oscar, e Sábado (2005). Em 2007, foi lançado no Brasil o romance Na praia, prosa precisa e implacável em que um único mal-entedido traz profundos estragos na vida dos personagens, os recém-casados Edward e Florence. Serena (2012) foi lançado agora nesta edição da Flip, antes mesmo de ser lançado na Inglaterra – previsto para agosto.

Jennifer Egan nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, em 1962. Ganhou o Pulitzer e o National Book Critics Circle com o romance A visita cruel do tempo. Publicado no Brasil pela editora Intrínseca, conta várias histórias entrecruzadas, em que cada capítulo poderia ser um conto independente. Caleidoscópico, vamos de uma São Francisco dos anos 1970 até uma Nova Iorque de um futuro próximo, conhecendo dezenas de personagens ligados de alguma forma entre si e à música – ou à indústria fonográfica –, embora o mais marcante personagem, que parece se materializar ao longo das páginas, seja o tempo. A Intrínseca acaba de lançar também O torreão, romance anterior ao A visita cruel do tempo.

No final da mesa, Dapieve perguntou para os dois sobre prêmios, como o Nobel, já que ambos são escritores premiados em seus países. Egan fez uma careta e arrematou que “prêmios são questão de sorte, agradar as pessoas certas na hora certa”, não dando muita importância para eles. O escritor inglês concordou.

Mesa: Apenas Literatura


Por Christiane Angelotti

“A literatura se dobra sobre si mesma, mas abre a conversa entre as pessoas.” Foi assim que Paulo Roberto Pires abriu a mediação da segunda mesa desta edição da Flip, na última quinta-feira, dia 5, falando sobre o que uniu o escritor catalão Enrique Vila-Matas e o escritor chileno Alejandro Zambra.

Como se dá o processo de criação de um escritor? O que ele lê o influencia? E a que ponto? Essas foram algumas das questões que nortearam a mesa,  considerada como uma boa surpresa e uma das melhores até então. Os autores deram um show de bom humor, simpatia e humildade, ao mesmo tempo em que demonstraram amarem o ofício da escrita, estudarem e respirarem literatura. Embora pareça óbvio, não são todos os escritores que são assim.

Vila-Matas e Zambra contaram um pouco de suas referências literárias e sobre a honestidade do escritor em admitir que dentro da literatura, nada é original e inédito, e sim baseado em várias obras, em todos os elementos da cultura, que o influenciaram para ser criada. “Há pessoas na Espanha que acreditam ser os primeiros. Aqui também. Não há memória cultural”, disse Vila-Matas sobre como cita o que já foi escrito para compor sua narrativa.

“Esqueci de trazer o livro para ler um trecho”, disse Vila-Matas, descontraindo a mesa que prometia ter um clima tenso pela fama do autor de não ter papas na língua. Após conseguir um exemplar de Ar de Dylan, recém-lançado no Brasil, leu um trecho que tenta explicar porque ele o classificou como “livro-rascunho”.

Alejandro Zambra arriscou o português para ler um trecho de seu livro Bonsai. Não satisfeito, voltou ao espanhol para continuar a leitura de seu romance. Afirmou que pensou primeiro no título e no conceito de um bonsai para escrevê-lo. “Não quero que o leitor se interesse apenas pelo final. Se você continua a ler sabendo do final, é porque outra coisa lhe interessa”, disse ele sobre a “honestidade” que buscou ao dar para o leitor o desfecho da história logo na primeira frase do romance.

Ainda sobre Bonsai, comentou que inicialmente desejava fazer dele um “livro-objeto”, que pudesse ser manuseado pelo leitor e interagisse com ele e não apenas com a própria história, uma tentativa de resgatar o caráter físico do livro que disse estar se perdendo com a leitura digital.

Vila-Matas afirmou que o planejamento e o processo de um livro é o que mais o instiga. Dessa forma abriu uma discussão sobre a arte inacabada, citando, inclusive, o cineasta François Truffaut. O escritor afirmou não se envergonhar de buscar a inspiração em autores que vieram antes dele, pois, na verdade, negá-los seria um crime. Zambra concordou com o colega de profissão, “a ideia de ser ajudado pelos mortos, aqueles que vieram antes, é importante para contribuir na obra de um novo escritor”, completou.

“Nós escrevemos depois dos outros (...), o que constrói um autor são também suas memórias”, completou Vila-Matas. E acrescentou que durante muito tempo de sua vida tentou se parecer com os outros, e que é um grande exercício escrever tendo suas memórias e influências sem perder a sua identidade.

Zambra citou uma frase do poeta português José Luis Peixoto, na qual acredita nortear sua escrita: “Cada vez que escrevemos invocamos os mortos”. Disse acreditar que isso seja a essência do escritor: contribuir para essa familiaridade sendo honesto consigo e com o leitor.

Vila-Matas completou dizendo que na literatura o diálogo com o outro é mais uma forma de compartilhar. A leitura iguala leitor e escritor. Questionado sobre o que move sua escrita, Zambra disse, entre outras coisas, que busca tentar entender o mundo, mas às vezes escreve para questionar e até para fugir de questões.

Uma mesa rica em ideias e com uma interação maravilhosa entre os autores.

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona, na Espanha, em 1948. Considerado um “escritor de escritores”, sua ficção metalinguística abusa das referências à própria literatura. Publicado em mais de trinta países, é autor de A assassina ilustre (1977), Suicídios exemplares (1991), Paris não tem fim (2003), Doutor Pasavento (2006), Dublinesca (2010), Ar de Dylan (2012), entre outros.


Alejandro Zambra nasceu em Santiago, Chile, em 1975. Autor do premiado Bonsai (romance, 2006), Bahía inútil (poesia, 1998), Mudanza (poesia, 2008), La vida privada de lós árbores (romance, 2007) e Formas de volver a casa (romance, 2011).